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Adoradora de literatura em geral.
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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
Sinopse:
Em plena Guerra Fria, a CIA engendrou um plano, baptizado Jazz Ambassadors, para cativar a juventude de Leste para a causa americana. É neste pano de fundo que conhecemos Erik Gould, pianista exímio, apaixonado, capaz de visualizar sons e de pintar retratos nas teclas do piano. A música está-lhe tão entranhada no corpo como o amor pela única mulher da sua vida, que desapareceu de um dia para o outro. Será o filho de ambos, Tristan, cansado de procurar a mãe entre as páginas de um atlas, que encontrará dentro de uma caixa de sapatos um caminho para recuperar a alegria.

Andava eu mergulhada numa fantasia quando a minha querida Sofia me disse que este, Nem Todas as Baleias Voam, eu tinha mesmo de ler. Curiosamente, o dia em que o outro mundo chegou ao fim coincidiu com a chegada de Afonso Cruz ao meu lar o que, claro está, me pareceu premonitório e positivo, merecendo uma salva de palmas ao carteiro e um mergulho imediato na narrativa. 
Afoguei-me. 

A sua capa fabulada e a sinopse que ignorei foram, provavelmente, a razão do enorme choque que senti logo nas primeiras páginas, um princípio confuso que me manteve embalada pela prosa encantatória e, mais tarde, pela profundidade da natureza crua desta melodia que, sem nunca chegar a ser bela, me envolveu intimamente. 

Temos um pai (Gould) extraordinário enquanto pianista mas que é surdo para a sua própria existência e dos que o rodeiam, transformando-se no reflexo dos dramas contemporâneos daqueles que ousam amar mais do que a si mesmos. Ele vê literalmente a música e fascina-nos por dar a conhecer as suas imagens a todos, transcendendo-a. Temos, também, um filho (Tristan) que tem a sensibilidade de, entre a inocência, se deixar engolir pela disfuncionalidade do seu lar, encontrando na rotina um meio para sobreviver ao seu campo de visão, um campo onde a sinestesia lhe permite dar forma aos seus sentimentos e aos dos outros, revelando objectos e pessoas que lhe invadem o olhar e a mente, mostrando-lhe mais do que qualquer um deveria ser obrigado a ver. Entre ambos há, na mais simples das acepções, uma relação que desespera por sobreviver a uma paixão avassaladora e a uma perda indescritível, uma relação que se agarra a outros e ao improvável para acontecer.

Como em muitas outras histórias, aqui as personagens são fundamentais, são elas os alicerces do enredo que, como se anuncia, toca a Guerra Fria e o seu antecedente pesado, toca a CIA e o seu projecto Jazz Ambassadors cujo presente atrapalhado guia o leitor por caminhos inesperados. Assim, um dos intervenientes mais marcantes é aquele que baptizei como o homem do holocausto (Isaac), que descreve os seus traumas como uma beleza angustiante, do tipo que arranha a garganta, dói e não nos deixa esquecer. Este mostra-nos, acima de tudo, que a mais dolorosa recordação da alma permanece, como mácula física, como um para sempre infeliz. A sua esposa (Tsilia) faz pensar a arte, faz pensar a excelência abstracta através do homem e da sua índole, colocando-a não só na pele de quem observa como no modo como se mostra, enquanto apoia o filho daquele surdo pai. E, por fim, tenho de referir uma meretriz que deve a profissão a Bach, uma personagem surpreendente no seu nojo e na sua revelação, uma peça crucial que representa bem a forma como a história se constrói, para lá do óbvio e da afectividade com o leitor, fazendo-se valer de representações no mais simples dos sentimentos – o protagonista tem a dita sinestesia, lembram-se?

Devo, ainda, citar-vos sem spoiler os relatórios (momento CIA) que por vezes surgem entre a narrativa, creio que cheguei a pensá-los absurdos até constatar como ponderam, de forma tão transparente, a cegueira dos mais atentos ao que lhes é alheio, mais um paralelismo inevitável da obra. 

Enfim, não vos posso contar muito desta história de amor à música, à perda, à família, aos pedaços que sobram e às lembranças, mas posso dizer-vos que as suas metáforas criadas com os exemplos mais simples são vidas inteiras, significados plenos que se colam à pele do leitor que dá por si preso a uma escrita que se entranha. Quase todos os capítulos são senhores de uma reflexão, de profundidade, e marcaram-me com uma melancolia palpável que se apoderou de mim, um inebriamento que permanece e me exige cautela ao libertar-me do torpor e da dor deixados por esta experiência maravilhosa – talvez eu viva demasia as histórias mas acredito, piamente, que será custoso voltar a entreter-me com as palavras após Afonso Cruz, afinal ainda tenho mais cinco romances seus guardados nas minhas estantes e que chamam por mim. 

Para finalizar, continuando sem dizer nada de concreto (desculpem), creio que ninguém duvida do valor da música e do seu poder, ninguém duvida da certeza de uma criança que ainda desconhece o desespero da sua raça e que acredita poder permanecer para sempre numa caixa de recordações, ninguém pode contestar que nem sempre a verdade vem à tona, principalmente quando a teia criada para a esconder é idealizada por quem mais deseja revelar-se. Os meus pensamentos ficaram com Natasha.

Uma aposta cinco estrelas da Companhia das Letras, uma surpresa deliciosa na minha caixa de correio que me fez muito, muito feliz. Obrigado. 

Título: Nem Todas as Baleias Voam
Autor: Afonso Cruz
Género: Romance
Editora: Companhia das Letras, Grupo Penguin Random House



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