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domingo, 13 de dezembro de 2015

Sinopse:
Estação Onze conta-nos a cativante história de um grupo de pessoas que arriscam tudo em nome da arte e da sociedade humana após um acontecimento que abalou o mundo. Kirsten Raymonde nunca esqueceu a noite em que teve início uma pandemia de gripe que veio a destruir, quase por completo, a humanidade. Vinte anos depois, Kirsten é uma atriz de uma pequena trupe que se desloca por entre as comunidades dispersas de sobreviventes. No entanto, tudo irá mudar quando a trupe chega a St. Deborah by the Water. Um romance repleto de suspense e emoção que nos confronta com os estranhos acasos do destino que ligam os seus personagens.

Do meu ponto de vista, é curioso que um livro se faça anunciar pela melancolia, por um sentimento íntimo que serve de ponto de partida para tantos outros capazes de nos transportar no tempo. No entanto, a nostalgia é certamente a emoção que personifica o decorrer desta obra e que permanece com o leitor quando virada a última página, quando é tomada a consciência de tudo o que poderíamos ter sido, somos ou algum dia chegaremos a ser, com o pretérito a reafirmar-se sempre.

Para lá de um enredo inteligente, Emily Mandel cativou-me pelo seu dom da palavra, pela cadência com que a anuncia e pela sua capacidade de me envolver nos contextos dissonantes em que o seu ensaio se fortalece, encerrando o texto em paralelismo com o seu princípio e deixando-me feliz por ter tido a oportunidade de experienciar a sua história. O livro de que vos falo hoje não é para todos os leitores mas é, certamente, um livro que muitos deveriam ler. 

O cenário pós-apocalíptico serve de mote introspectivo a um texto que se desenvolve em diferentes ambientes e que dá vida a diversificadas personagens que, por sua vez, se ligam entre si com intensidades diferentes entre um passado que vamos descobrindo em flashbacks e um presente que se vai construindo a um ritmo certamente muito distante daquele em que hoje existimos. 
Gritante na expressão cultural e sufocante a representar a sobrevivência, Estação Onze é, definitivamente, um dos livros mais singulares li sobre a perspectiva que apresenta, ora aprofundando temáticas, ora relevando interesses e quase se desconectando com o leitor. 

As suas personagens, com maior ou menor destaque, evidenciam as lacunas de hoje e as prioridades desse futuro tão diferente da nossa realidade. Igualmente, levam-nos a reflexões profundas e internas numa viagem atraente sobre os seus pensamentos e memórias – algo descrito de forma realmente interessante. 
Kirsten, considerada uma das protagonistas, por exemplo, revela a capacidade que o nosso cérebro tem de, por vezes, apagar memórias indesejáveis, oferecendo-nos uma visão mais pormenorizada do presente descrito e revelando uma aguçada curiosidade sobre o mundo pré-catástrofe. Arthur, por outro lado, nem sequer conheceu este momento distorcido mas, ainda assim, marcou-o não só pela sua identidade cultural que perdurou, como também pela capacidade de revelar tantos traços e fragilidades do Homem que hoje conhecemos. Enfim, com maior ou menor relação e/ou evidência, a forma como todos os intervenientes se articulam é um dos factores de destaque nesta narrativa que tão depressa os dispersa como os une. 

Como tantas vezes é passível de ser examinado nestes textos, a análise introspectiva da humanidade, seja ela singular ou social, é um dos pontos favoráveis ao longo do livro que mostra não apenas o rastilho da loucura, mas a forma como esta afecta todas as emoções e relações precedentes – tolo do homem que não acreditar mudar com a mudança do mundo, mudança essa que lhe afecta irremediavelmente a mente. O universo descrito é, por sua vez, quase anárquico, dando lugar a seitas, medos e uma adrenalina extrema em pequenos ou grandes agregados, onde a linha que os equilibra é tão frágil como qualquer vida que se inicia. 

O rastilho da loucura, a ausência de normalidade e as estruturas divergentes são, assim, pontos-chave desta narrativa única que, muito mais do que revelar um acontecimento, pretende vincar as alterações fundamentais efectivas na humanidade como a conhecemos, usando para tal ferramentas actualmente desvalorizadas e anulando, quase por completo, as necessidades agora nos parecem imprescindíveis. Sim, Estação Onze tem morais ramificadas que vão muito além de uma primeira ponderação. 

Esta é uma aposta Editorial Presença que sugiro sem restrições a quem procura ler algo diferente daquilo que, comercialmente, lhe é oferecido dentro deste género literário. 

Título: Estação Onze
Autora: Emily Mandel
Género: Ficção Científica; Pós-apocalíptico


Para mais informações sobre o livro Estação Onze, clique aqui.



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