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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Sinopse:
Uma corrida vertiginosa contra o tempo e um inimigo implacável.
Uma jovem mulher brutalmente assassinada num hotel barato de Manhattan. Um pai decapitado em praça pública sob o sol escaldante da Arábia Saudita. Os olhos de um homem roubados do seu corpo ainda vivo. Restos humanos ardendo em fogo lento na montanha de uma cordilheira no Afeganistão. Uma conspiração para levar a cabo um crime terrível contra a Humanidade. E um único homem para descobrir o ponto preciso onde estas histórias se cruzam: Peregrino.

Nos últimos dias parei várias vezes para pensar como poderia abordar esta história, complexa no seu enredo, impactante nas suas temáticas e contextualmente tão actual que, inevitavelmente, transcende o seu carácter ficcional. Sabia, no entanto, que se tivesse um ponto de partida razoável as palavras iriam fluir naturalmente o que, curiosamente, acabei por encontrar no seu título – Peregrino.
Com um significado aparentemente tão literal e, de certa forma, assim representado durante a obra, esta palavra conseguiu fazer-me reflectir em todas as suas acepções e acabei por encontra-la não só nas suas personagens, como também nos valores e culturas que espelham as suas nações e nas muitas acções desenvolvidas.

A sinopse, resumida e explícita, prepara-nos para a crueldade da natureza humana, este livro, todavia, leva-nos a explorar o seu íntimo e a sua índole, as suas motivações ou a ausência das mesmas quando conduzidas a um fim. Este livro guia-nos pelos olhos de dois homens que são, simultaneamente, opostos e similares, nas suas escolhas e nas suas lutas, no lugar que ocupam no mundo e na importância que acabam por ter no mesmo. Sarraceno e Peregrino. É pela voz do segundo que conhecemos o primeiro, que a história que nos é contada. Uma história brilhante e repleta de estratégia, engenho e sangue, uma história que poderia realmente desenrolar-se sem que nenhum de nós chegasse, jamais, a desconfiar da sua existência. 

Que grandes personagens, tão intensas e fortes nos seus intentos, tão inteligentes e corajosas não só aos seus olhos como aos daqueles que se cruzam no seu caminho, incluindo o próprio leitor. Mesmo quando os actos cometidos vão contra tudo o que se julga correcto, é impossível não admirar a persistência, a resistência e os limites alcançados pelos dois protagonistas. 
Senhor de tantos nomes, tendo como nome de código Peregrino na missão mais importante da sua vida, ele é igualmente a figura do herói e o seu antónimo, uma figura que se revela cadenciadamente ao longo do texto mas que sentimos nunca descobrir verdadeiramente. Este narrador é, paralelamente, o rosto dos EUA e um viajante, forasteiro na sua própria nação. Foi maravilhoso entrar na sua mente, ver os seus medos e recordações, ver a influência de identidades há muito perdidas no seu trabalho. Ele é quase perfeito ou estaria morto, é o tipo de indivíduo com o qual eu não gostaria de me cruzar. 
Sarraceno, por sua vez, é quase demasiado evidente no destino que lhe está traçado, abrilhantado pela excelência que o destaca e pelas suas deduções retorcidas, ousando mais que qualquer outro e representando, também ele, uma facção proeminente na sua terra. Ambos proporcionam um duelo épico de titãs, com as suas causas dissonantes que os transformam em algo muito além do comum. 

Os intervenientes secundários, para meu deleite, fazem justiça ao restante enredo, trazendo novos temas interessantes, igualmente contemporâneos e que tornam a narrativa ainda melhor. Sussurros, Battleboi ou Ben, são alguns dos nomes que me recordo, caricaturas ficcionais que se cruzam na vida de Peregrino e permanecem durante um longo período tempo. Já do lado do Sarraceno, poucos ou nenhuns permaneceram mas acreditem que todos cumpriram o seu papel. 

Quanto a problemáticas, existem questões afectivas triviais, como amor e ciúmes que levam a vinganças cruéis, mas são as emoções parentais que acabam por tocar as personagens com maior acuidade, sendo as verdadeiras impulsionadoras deste título que, acreditem, está longe de tender ao sentimentalismo. 
Como referi anteriormente, são as questões políticas, sociais e, até, económicas que servem de rastilho ao grande thriller, mistério, que domina a história e essas, caros leitores, são exploradas de forma irrepreensível. Começando pela ditadura totalitária no Médio Oriente e terminando nos secretismos da democracia americana, o autor vai expondo dilemas transversais ao nosso tempo, apontando vários escalões sociais, as suas lacunas e mais-valias. Tão depressa conhecemos um trabalhador humilde e resignado, como um radical revoltado, as diferenças de cada um, a supremacia de quem está no poder neste jogo existencial. Um detective, um hacker e um mártir, uma esposa tão diferente de uma mãe, uma criança inocente e mais um corrupto ou traficante ou assassino, o que os separa e aproxima, aquilo que os torna parte de um todo, no dia-a-dia, é apenas mais um pouco do que irão encontrar. 

Há de tudo, para todos os gostos e com muitos pormenores capazes de revolver os estômagos mais sensíveis. Há a fé que move os homens e a revolta dos mesmo quando descrentes, há a luta pela sobrevivência e o acreditar na transcendência do seu papel entre pares. É um livro pleno, um quebra-cabeças perfeito ao qual eu fiquei rendida. Aliás, tal como a capa da minha cópia de pré-venda, gentilmente cedida pela Topseller, prometia, Terry Hayes conseguiu prender-me logo nos primeiros capítulos e assim me manteve, ao longo de 651 páginas que me levaram por caminhos distantes, dissonantes, que quando se encontraram, entre tensão e horror, perto do desenlace, não conseguiram deixar de me fazer sorrir. Sim, este puzzle forma-se de forma brilhante e mesmo que acreditem estar perto da sua resolução, precocemente, acredito que irá igualmente surpreender-vos.

Esta é um aposta cinco estrelas da Topseller a que nenhum leitor do género ficará indiferente. Definitivamente, será um dos presentes que conto deixar em sapatinhos no próximo natal. Recomendo-o vivamente. 

Título: Peregrino
Autor: Terry Hayes
Género: Thriller
Editora: Topseller


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