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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Sinopse:
1787. Bristol é uma cidade em franco crescimento, uma cidade onde o poder atrai os que estão dispostos a correr riscos. Josiah Cole, um homem de negócios que se dedica ao comércio de escravos, decide arriscar tudo para fazer parte da comunidade que detém o poder na cidade. No entanto, para isso, Cole vai precisar de capital e de uma esposa bem relacionada que lhe abra as portas necessárias.
Casar com Frances Scott é uma solução conveniente para ambas as partes. Ao trocar as suas relações sociais pela proteção de Cole, Frances descobre que a sua vida e riqueza dependem do comércio respeitável do açúcar, rum e escravos.
Entretanto, Mehuru, um conselheiro do rei de Ioruba, em África, é capturado, vendido e enviado para Bristol, onde será educado nos padrões ocidentais por Frances, por quem, inexoravelmente, se irá apaixonar.
Em Um Comércio Respeitável, Philippa Gregory oferece-nos um retrato vívido e impressionante de uma época complexa onde impera a ganância e a crueldade que devastaram todo um continente.

Um Comércio Respeitável foi o primeiro livro que tive o prazer de ler de Philippa Gregory enquanto escritora de ficção para adultos e, confesso-vos, ainda nem sei ao certo como expressar-me sobre a realidade transposta pelas suas palavras, palavras que me tocaram profundamente.
Os factos narrados são tão credíveis em relação à época retratada e, muitas vezes, a autora nos faz acreditar piamente em tudo a que assistimos, emocionando-nos e envolvendo-nos com as suas personagens sonantes, com os momentos marcantes por estas vividos e, principalmente, com a crueldade consecutiva e embelezada, uma crueldade nomeada de respeitável.

A primeira grande diferença deste livro, em relação a todos os que já li passados no século XVIII, tem que ver com o ambiente social em que os intervenientes estão inseridos. Eu, leitora habituada a romances de época leves, fui confrontada com um livro histórico com laivos de romance, aqui secundário, em que a classe média se destaca para alcançar os que sempre desejei conhecer entre o ton, na ficção.
Esqueçam o requinte, as propriedades pitorescas e os vestidos invejáveis, esta é a história que vos dará a conhecer as vias que tornaram Condes e Viscondes cobiçados pela sua glória, através de um caminho cru e repudiante, repleto de sensações desagradáveis e que permite conhecer o holocausto a que África foi submetida pelas sedentas mãos da Europa, um caminho que nos mostra a quase destruição de um continente, espelhando a naturalidade com que tal foi feito, e que se foca principalmente no “venerável” comércio de vidas, em tráfico humano, em tráfico de escravos.

Através de três perspectivas diferentes, a autora proporciona ao leitor a possibilidade de conhecer de forma abrangente a cultura, as relações e os sentimentos nutridos nestes tempos “auspiciosos”, tempos de ascensão para Inglaterra, enquanto seus intervenientes aprendem o preço das suas almas.
Desta feita, o protagonista Josiah Cole reflecte na perfeição a ambição dos que vieram do nada e descobriram no comércio marítimo a oportunidade de se erguerem socialmente, transportando rumaçúcar e escravos de África - viagens caras, arriscadas e que quando efectuadas dentro da legalidade eram pouco rentáveis. Este foi, como todos os outros, um negócio manipulado e controlado pelos mais ricos, pelos pertencentes à Merchant Venturers of Bristol, que Josiah veio a descobrir adulterarem bem mais que o comércio.
Frances Scott, de passado infortúnio, encontra um mundo diferente após o seu casamento com Josiah. Esta personagem descobre que por detrás da protecção do nome da sua família a realidade é mais dura do que aparenta, pelo que ver-se-á obrigada abdicar dos seus valores e a aceitar o inimaginável para ascender na escala social e alcançar o que sempre desejou. Cometerá muitos erros e na sua humanidade só muito, muito tarde é que descobrirá que há emoções que não têm preço, enquanto o leitor assiste ao seu brotar para o mundo real, ora protegida ora audaz, trabalhando naquela que nunca deveria ter sido uma profissão.
Estas duas personagens oferecem o prisma negro, mas nem por isso menos sofrido, dos que tentaram chegar mais longe numa época injusta, uma época em cada um era definido pelo seu estatuto e pela sua capacidade de chegar mais longe, onde os escrúpulos, a honra e a dignidade ficavam para segundo plano.

O terceiro narrador deste texto é Mehuru, um homem respeitado entre o seu povo. Capturado como escravo, Mahuru tem a sorte ou azar de ser transportado para Inglaterra onde será ensinado para servir. Conhecê-lo é uma das experiências mais férteis deste enredo, do seu passado à história do seu povo, passando pelas dificuldades da travessia a que se vê sujeito, repleta de atrocidades, até ao seu começo difícil nas terras se sua majestade, é algo tão inebriante quanto chocante. Este interveniente faz-se acompanhar por vários secundários, com os quais partilha a cor, que dão profundidade ao seu drama, pelo que é relevante destacar o papel das mulheres e das crianças perdidas e abusadas, cegas e cativas, pela prepotência de uma sociedade tão diferente da sua.

Ainda que remetido para segundo plano, na mesma medida em que é crucial para os caminhos seguidos pelo texto, encontra-se o romance. Embora eu não lhe tenha prestado muita atenção, de tão abstraída que me encontrava a absorver todos os outros pormenores, é estimulante a forma como a relação entre Frances e Mehuru os transforma, abrindo não só as perspectivas de ambos para os seus mundos opostos, como pela partilha de sentimentos proibidos, de dilemas secretos que revolucionaram as suas existências.

Embora já o tenha referido, penso que não é demais voltar a afirmar a importância do comércio, pois é a sua influência que domina o livro. A ambição, a sua imposição nos extractos sociais e o seu verdadeiro preço ganham todo um novo sentido ao tratá-lo como respeitável, um sinónimo certamente distópico no seu contexto, em que a ausência de respeito pelo próximo prevalece.

Para terminar, os cenários diversificados são mais um atractivo, de entre os quais destaco o barco onde Mehuru viaja sujeito às piores visões e condições. Os tratamentos para com os escravos, ainda que os que conhecemos melhor sejam privilegiados, é chocante, e mais chocante é descobrir a volatilidade das vidas que em vez de seguirem para Inglaterra tiveram como destino as plantações de açúcar, onde a morte era uma constante devido ao trato dos negros como meros objectos facilmente substituíveis.   

Esta é, portanto, uma leitura que sendo de entretenimento é mais ainda de aprendizagem, pela certeza de que as suas descrições se aproximam muito da realidade da época. Uma leitura que sem falar de amor entre os homens, fala do amor de um povo à sua terra perdida, uma leitura que sem falar de amizade, fala dos laços criados pela sobrevivência, uma leitura que embora nos mostre os que ambicionam o belo, mostra o lado mais putrificado dos que deram o exemplo.

Quando à escrita de Philippa Gregory esta é fluida e simples, mesmo com as trocas de narradores e a grande carga emocional que transmite ao leitor,
As descrições, como citei anteriormente, dão a ver a totalidade do ambiente que rodeia os intervenientes, sendo inclusive bastante sensoriais. Também os sentimentos, embora pareçam ausentes, estão bem caracterizados, estante latente a frieza do povo inglês em contraste com aqueles que toda a vida saborearam e valorizaram o calor do sol nas suas peles queimadas. Sim, e é um livro de contrastes.

Pessoalmente, eu não poderia estar mais satisfeita. Comovi-me bastante e compadeci-me de todos os que já não estão entre nós e um dia conheceram a catástrofe que foi a escravatura. Muitos traços enraizados nos dias de hoje na cultura africana passaram a fazer um novo sentido para mim, sobre a qual espero vir a aprender mais em breve.

Esta é uma aposta de excelência da Porto Editora que marcou as minhas leituras em 2013 pela sua magnífica qualidade, uma obra que eu recomendo aos interessados e curiosos pelos temas abordados.

Título: Um Comércio Respeitável
Autora: Philippa Gregory
Género: Romance Histórico
Editora: Porto Editora


2 comentários :

Maria do Rosário Palma disse...

Gostei da análise feita ao livro. Já tinha lido algumas passagens inicialmente, mas este, não é um livro para ler passagens, é um livro que merece a nossa atenção pela riqueza do seu conteúdo literário. Mais tarde, também , o li pois, as ditas passagens deixaram-me curiosa, e levaram-me a ler este fabuloso livro.
Uma belíssima prenda de Natal. Gostei imenso, aliás gosto deste género de Romances Históricos.

Elphaba J. disse...

É de facto um livro fantástico Maria do Rosário, fico feliz que tenha gostado :)

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